A aviação portuguesa comunicou cerca de 700 ocorrências com aves em 2024, e muitos desses embates poderiam ser evitados

A Proportione —estratégia, tecnologia e pessoas— publicou a BirdRisk, uma aplicação gratuita que cruza vinte camadas de dados para mostrar ao piloto onde estão as aves antes de as encontrar. Uma aplicação que funciona como um ‘Waze do ar’

Perto de duas vezes por dia, algures no céu português, um avião cruza-se com uma ave e alguém preenche um relatório. As ocorrências com aves foram 8% de tudo o que a aviação civil comunicou à ANAC em 2024: cerca de 700 casos ao longo do ano, um a cada doze horas. É a quarta categoria mais comunicada do país.

Dito assim impressiona, mas impressiona menos do que parece: a maioria destes encontros não deixa mais rasto do que a papelada. Entram na conta os embates, mas também as quase-colisões e os simples avistamentos.

Alguns, porém, são a sério. E para perceber onde e como, há que olhar para o lado — para Espanha, onde o regulador publica um desagregado que em Portugal não existe. Entre 2017 e 2022 a agência espanhola de segurança aérea contou treze ocorrências graves por embate com aves: cinco acidentes e oito incidentes sérios. Pouco mais de duas por ano. Um morto e um ferido. E é ao olhar de perto para essas treze que aparece o que quase ninguém espera.

Porque pensa-se numa ave contra um avião e pensa-se numa descolagem. Numa aterragem. No aeroporto, que é onde estão as patrulhas de fauna, os canhões de gás e os falcões adestrados. Pois não. Dessas treze ocorrências graves, seis aconteceram em rota: em pleno voo, a quilómetros da pista e de toda essa maquinaria. Mais do que na aproximação. Mais do que na descolagem. Mais do que nas imediações do aeródromo.

Também não aconteceram aos aviões que se imaginam. Das treze aeronaves, oito eram aparelhos pequenos: aviões ligeiros, ultraleves, um planador. Quatro voavam por gosto e três eram voos de escola. De maneira que a pior parte fica para a aviação ligeira, a dos aeroclubes de fim de semana, que é precisamente a que voa onde não há ninguém a enxotar aves.

E a ave também não é uma qualquer. Os pardais e os andorinhões dão os sustos; as aves de grande porte dão os desgostos. Em Espanha isso tem nome: o grifo, que aparece em oito desses treze casos.

Vale a pena parar aqui, porque é o detalhe que muda tudo: isto não acontece ao acaso. Concentra-se no verão, concentra-se em zonas determinadas e concentra-se num punhado de espécies. Um grifo não aparece em qualquer sítio nem a qualquer hora: aparece onde há uma térmica que o sustente, e à hora a que essa térmica se levanta. Uma gaivota não está em qualquer lado: está onde há um aterro. Os bandos não pousam em qualquer campo, mas naquele que acabaram de ceifar.

Tudo isso, na verdade, sabe-se. Está escrito nos dados há anos. O que ninguém tinha feito era pô-lo à frente do piloto.

É isso a BirdRisk, a aplicação que a Proportione acaba de publicar, e funciona como um Waze do ar. O piloto desenha a rota com o dedo sobre o mapa e o ecrã colore-se consoante o risco de encontro com aves ao longo do caminho. Muda com a hora do dia. Muda com a altitude a que vai voar. E avisa quando se entra numa zona mais movimentada, tal como o navegador do carro avisa de uma fila três quilómetros antes de lá chegar.

Por baixo desse mapa há vinte camadas de dados a cruzarem-se ao mesmo tempo. Corredores migratórios. Térmicas. Albufeiras. Aterros. Restolho acabado de ceifar. Incêndios ativos. Linhas elétricas. Parques eólicos. Poluição luminosa. Vento favorável à migração. Densidade de tráfego aéreo. E milhões de observações reais, anotadas uma a uma por naturalistas de meio mundo nos grandes registos internacionais de avistamento de aves. Vinte sinais que isolados não dizem grande coisa e que juntos desenham um mapa razoavelmente fiável de onde vai haver aves daqui a duas horas.

O que a aplicação não faz, e convém sublinhá-lo, é decidir. Não diz se se deve voar, nem quando, nem por onde. Mostra o risco e afasta-se. A decisão é do piloto comandante, como sempre foi na aviação e como deve continuar a ser.

«A BirdRisk não recomenda nada: mostra onde e quando há maior probabilidade de encontro com aves, e apenas sobre o território para o qual o modelo está calibrado. A decisão é sempre do piloto comandante», afirma Javier Cuervo, cofundador da Proportione.

O modelo está calibrado para a península ibérica, Portugal e Espanha, e a aplicação pode ser descarregada na App Store dos dois países. É gratuita e continuará a sê-lo durante este ano. Funciona ainda sem rede, o que em aviação ligeira é mais regra do que exceção.

BirdRisk: Bird Strike Risk, para iPhone com iOS 17 ou superior. Mais informação em birdrisk.com

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